• Bora Cronicar

Voa! por Jessika Sampaio


Certeza que ela se orgulharia. Antes achava que não, mas em seu abraço sinto o carinho e todo o amor que nutre por mim.

Ela sempre foi meu termômetro do que fazer - O que ela pensaria de mim? - me perguntava antes de partir para algo um tanto transgressor. Mas aí chegou aquele momento em que o meu limite começou a ultrapassar o seu ‘certo e errado’, e, mesmo eu sabendo que não me julgaria de verdade, sabia que ela não aprovaria. Francamente, ela diria algo como - Tenha vergonha, isso lá é coisa que se faça!

Eu não tinha vergonha. Sei que ela teria. Na realidade, sei que ela sabe que deveria ter, mas que no fundo vibrava com cada barreira quebrada, se orgulhava de eu compartilhar seu sangue, seu jeito amável e até mesmo o seu ar espoletado que tinha na época da juventude.

Até hoje brinca dizendo que puxei a canalhice de meu pai, mas não, sei que ela me olha e vê as puladas de muro dela durante a adolescência, os namoricos juvenis e até fugida para o convento para não ter mais que responder a um pai autoritário.

Sinto que ela me vê ainda mais sua imagem semelhança na revelação que o padre lhe fez sobre não ela ter vocação para ser freira. Aprendi que transgredir fazia parte de mim e dela e eu deveria fazer por mim e por ela.

Sei que se orgulharia. Por saber disso, aprendi seus limites. Aprendi a ouvi-la, a falar pouco e perguntar - Eu posso ajudar em alguma coisa? Aprendi muito naquele abraço que demos em um momento de dor e em que ela me disse - Você não pode me julgar - e eu só consegui responder - Não estou aqui para isso, estou aqui para escutar suas dores, lhe abraçar e dizer que a amo.

Aquele dia me transformou! Vi a personificação do amor ali na minha frente. O afago sincero, a mulher espiritual que me guia! Senti suas lágrimas e as minhas. Ali compartilhávamos mais que o sangue em nossas veias, compartilhávamos segredos e o nosso maior era o ser ‘mulher’.

Deixei, naquele momento, de ser a filha, virei amiga, confidente e ouvi algo que repito para mim quando penso em me calar - Minha filha, uma de suas missões é falar, fale para outras mulheres!

Sei que ela se orgulha. Sempre confiou em mim e em seus instintos que a mandavam me dar asas. Ela me deu asas, colo e lugar para pousar. O que mais eu poderia querer? O que escolhi? Voar!

Sei que ela se orgulha e sempre volto, repouso em seu colo, cheiro seus cabelos e faço questão de dizer - Mainha, estava com tantas saudades!


JESSICA SAMPAIO é filha da dona Fátima, fortalezense que virou gringa nazoropa, faladora e dessa gente que viaja, principalmente na maionese.

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