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Sobre famílias, mulheres e heranças por Micélia de Oliveira

Um texto às minhas primeiras inspirações femininas: minha avó Maria Angélica e minha mãe Célia Maria


Eu cresci na periferia. Ok, uma periferia com cara de interior, bem verdade. A gente brincava de casinha no portão, não tinha nem calçada. As casas eram cercadas por arame e estacas espaçadas. Tempos depois vieram os muros. Tinha "pé de planta" de todo jeito. Todo mundo era primo. Mas essa história aqui não é pra falar sobre o lugar que eu cresci, ela é sobre quem estava lá. Minha família não é tão grande. Fui criada por uma mulher incrível. Minha mãe era, nos anos 80, o que muitas mulheres infelizmente não conseguem ser ainda hoje. Falo de autonomia, autenticidade. Professora, servidora pública, minha mãe sempre foi ligada aos movimentos sociais da classe e a sala de aula era seu palanque pra vida. Vocês acham que eu "aprendi" a ser atrevida assim com quem? Cresci ainda aos cuidados de uma outra mulher excepcional: minha avó materna. Minha avó era um misto de doçura e firmeza impressionante. Escrevia, desenhava, compunha, pintava, bordava e cantava. Eu achava minha vó tipo uma fada! Foi ela quem despertou em mim a paixão pelas artes, pela leitura, pela música, pela beleza das letras e o prazer da escrita. Lembro da voz cantarolando na cozinha acompanhando Ângela Maria no Philco vermelho que ficava na mesa de madeira no quintal pertinho da cacimba, enquanto eu me balançava na rede batendo os pés na parede da sala. A herança que essas duas mulheres me deixaram me acompanha até hoje e eu me olho e vejo tanto delas em mim. Da doçura ao atrevimento. Da poesia à inquietude. Da leveza ao arrebatamento. Eu sou toda elas e carrego em mim com muito orgulho o nome, o sangue e a fé.


MICÉLIA DE OLIVEIRA é mãe da Sofia e da Isa. Formada em Letras. Servidora pública. Torcedora do Ferroviário. Eventual procrastinadora, mas funciona bem sob pressão. Sem tempo pra gente fresca. Desconfia de quem não anda de ônibus e morre de medo de adoecer. Traz umas lonjuras no peito... mas ainda bem que é passarinho.

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