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Remédios de alma para uma deprimida: carta de Jung à senhora N.

por Manuely Silva


Começo esse texto com uma citação do livro de Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão:


“Nos anos depois da fuga de Guida ela sabia ainda menos. Eurídice tinha abafado os desejos, deixando na superfície apenas a menina exemplar. Aquela que não levantava a voz ou o comprimento da saia. Aquela que não tinha sonhos que não fossem o sonhos dos pais. Aquela que só dizia sim senhora ou não senhor, sem nem mesmo se perguntar para o que é o sim, ou por que disse não”


Caso você não tenha lido o livro - A vida invisível de Eurídice Gusmão - ou visto o filme de mesmo título, por favor, leia, veja. Você não sabe o que está perdendo!


Nessa época, Eurídice está sofrendo pela partida de sua irmã, Guida. Sente-se só no mundo, sem a intermediação da conexão segura que era a irmã. Por algum tempo, eu diria meses, ela se perde nas concepções sociais sobre quem ela deveria ser, pois, de verdade, ela não sabia. Acaba entrando em um estado de alheiamento muito similar aos processos depressivos.


Sabe quando ficamos meio abobalhados, esperando que venha alguma resposta do céu ou que alguém resolva a vida por nós?


Passamos por isso quando temos alguma dificuldade, sim. Acontece que, na depressão, deixamos de esperar pelas respostas, não temos mais a esperança de resolução, nem que seja pela mão do outro. Esquecemos um pouco quem somos. Na verdade, nossa imagem torna-se mais turva, temos dificuldade de enxergar nossas qualidades, nossas conquistas e, principalmente, qual o nosso propósito na vida. Passamos a responder somente ao que querem de nós, isso quando não nos fechamos completamente.


É característica da crise depressiva um estado de obscurecimento. Quando estamos nesse estado, é como se toda nossa energia estivesse estagnada, lamacenta, parada em um ponto. Tendemos a ter pensamentos negativos repetitivos a respeito de nós (daqueles bem julgadores e opressivos) e não acreditamos na possibilidade de bons dias por vir.


Carl Gustav Jung (psiquiatra suíço, ex-discípulo de Freud e fundador da psicologia analítica) postulou sobre a personalidade e seu desenvolvimento. Para ele vivemos com o propósito de integrar consciente e inconsciente, assimilando aspectos possíveis de desenvolvimento e aprimoramento. Durante a vida, vamos construindo nossa personalidade. Desenvolvemos, por exemplo, uma espécie de máscara, a chamada Persona, que representa a maneira como nos adaptamos ao contexto social: é quem somos no trabalho, na escola, faculdade, que posição ocupamos na família. Já o Ego, é a parte da psique que se integra mais a consciência, nosso sentido de identidade. O Self, a totalidade da psique, conduz ao processo de individuação, que é justamente esse processo de desenvolvimento e aprimoramento.


Não tenho a intenção de ser acadêmica, ok? Caso queira se aprofundar no assunto, você pode entrar em contato que eu passo algumas referências.


Para Jung, a psique é pura energia, e, durante a depressão, essa energia está em baixa, presa em um ponto ou estagnada. Fica difícil movimentar o organismo como um todo. Às vezes, não só nossos pensamentos, mas também nosso corpo se torna pesado. Queremos nos entregar.


A seguir, trago uma carta enviada por Jung, na qual ele responde o que ele faria se estivesse em depressão:




"Küsnacht-Zurique, 09.03.1959

Prezada N. (destinatária não identificada),


Sinto muito que esteja tão atormentada. "Depressão" significa em geral "pressão ou coação para baixo". Isto pode acontecer mesmo que não se tenha o sentimento de estar "em cima". Por isso não gostaria de abandonar esta hipótese sem mais. Se eu tivesse de viver num país estrangeiro, procuraria alguma ou mais pessoas, que me parecessem amáveis, e me tornaria de certa maneira útil a elas, para receber libido de fora, ainda que de uma forma algo primitiva como o fez, por exemplo, o cachorro, sacudindo o rabo. Criaria animais e plantas, que me dessem alegria com o seu desenvolvimento. Eu me cercaria de coisas belas – não importa se primitivas ou simplórias – objetos, cores, sons. Comeria e beberia coisas gostosas. Quando a escuridão viesse, não descansaria até penetrar em seu cerne e chão e até que aparecesse uma luz no meio do sofrimento, porque a própria natureza se inverte in excessu affectus. Eu me voltaria contra mim mesmo com raiva, para que no calor dela derretesse meu chumbo. Renunciaria a tudo e me dedicaria à atividade mais humilde, caso minha depressão me forçasse à violência. Lutaria com o Deus sinistro até que me descolasse o quadril, pois ele também é a luz e o céu azul que retém diante de mim.


Seria isto o que eu faria. O que outras pessoas fariam é uma questão que não sei responder. Mas também para a senhora existe um instinto: arrancar-se para fora disso, ou entrar até as profundezas. Mas nada de meias-medidas ou meio entusiasmo. [...]

Com votos cordiais, Sinceramente seu (C.G.)" - Carl Gustav Jung, Cartas, Vol. 3: 1956-1961. Petrópolis: Vozes, 2003 p. 201-202.


Jung responde que não devemos nos atemorizar diante do obscurecimento. Para que nos desenvolvamos, a única maneira de ultrapassar a escuridão é lidando francamente com ela, procurando investir o pouco de energia que nos sobra de forma que essa energia retorne para nós com acréscimos. Essa não é, porém, uma fórmula pronta. Cada indivíduo tem sua personalidade e a depressão atua de forma distinta em cada um. Assim, a forma como melhoramos só pode vir do nosso interior, do nosso conhecimento de si. Sim, aprendemos com as crises.


P.S.: crise, aliás, vem do grego e significa “decisão, determinação, julgamento”.


MANUELY SILVA é psicóloga clínica de orientação junguiana, acupunturista e amante da escrita.

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