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O que é depressão? 4 mulheres e 4 histórias.

Atualizado: Jul 20

por Fernanda Carvalho


Não é tarefa fácil definir o que é depressão. Eu poderia expor estatísticas: em 2019, constatou-se que 12 milhões de brasileiros sofriam de depressão, o que representava 5,8% da população, taxa acima da média global, 4,4%. Poderia acrescentar que a depressão é um emaranhado de fatores psicológicos, sociais e biológicos.


Eu poderia costurar a estes dados definições de manuais psiquiátricos, como o DSM-V, e distinguir duas formas de depressão – leves ou graves – , ambas caracterizadas por, no mínimo, duas semana de humor deprimido associado a cinco ou mais sintomas. Ora coincidentes, ora distintos, os sintomas se prestariam a situar este mal em nuances possíveis: crônica, leve, grave etc.



Todavia, o que não diz o manual é que em seis meses de depressão se passam trinta anos. Também não estão entre os sintomas de depressão o cotidiano dos depressivos: pensamentos negativos, crença de que as coisas não vão melhorar, pensamentos de desesperança e ansiedade. É provável, leitor@, que estes deslizes do manual sejam um daqueles casos em que “a dor da gente não sai no jornal’.


Como, então, comunicar a outro ser humano o que é depressão? A mais justa descrição que vi até hoje para este mal foi a de Andrew Solomon, que a refere como “imperfeição no amor”. O amor é sentido atribuído, nascido do olhar e da jornada. A capacidade de gerar sentido é o motor da vida.


Dou aqui a mão ao Pequeno Príncipe que amou uma rosa igual a um milhão de rosas, mas, ao mesmo tempo, tão única. A singularidade morava no olhar do menino apaixonado, na história, na jornada que a flor lhe causou e na qual ela o acompanhou como saudade e utopia. O amor, leitor, é criação. Acredita?


Atribuir sentido é um gesto de amor e a depressão mina justamente essa capacidade, caracterizando-se como o oposto de sentido, de propósito. Para Solomon, ela destrói o indivíduo e ofusca sua capacidade de dar e receber afeto. É como perder-se de si, narrador e personagem da própria história. É ter suspensa a capacidade de gerar sentidos. Todas as páginas da história passam, então, a ser estranhas – não há pouso para o coração. Os dias ficam áridas, vindo daí a possibilidade de suicídio que acompanha alguns processos depressivos.

Outro aspecto a destacar sobre a depressão é sua singularidade. Ainda que seus sintomas figurem em um manual geral, cada indivíduo vive sua depressão – o inferno depende do penitente. Solomon corrobora, afirmando que a depressão “interage com a personalidade” de cada um. Em outras palavras, ninguém viverá uma depressão exatamente igual a outro ser humano. E ninguém será exatamente quem foi antes de uma depressão. Recorro, novamente, ao Pequeno Príncipe: “É tão misterioso, o país das lágrimas”.


A multiplicidade de jornadas possíveis dentro da depressão figura sem esgotar-se na diversidade de individualidades. Exemplo disso, é a trajetória das quatro mulheres escritoras narradas a seguir.



4 MULHERES ESCRITORAS QUE PRECISARAM LIDAR COM A DEPRESSÃO:


1. ADÉLIA PRADO:

Escritora brasileira, Adélia Prado é poeta, professora e contista. Ela atravessou, por dois anos, “uma temporada no deserto”. Durante este período, Adélia sentiu-se bloqueada em sua escrita e pausou o primeiro capítulo do livro “O homem da mão seca”, iniciado em 1987 e concluído apenas em 1994. Durante seu processo depressivo, Adélia recorreu à ajuda psiquiátrica e avalia que seu tempo de deserto lhe fez bem. Para a poeta: “é preciso viver a tristeza, ela faz parte da vida, assim como a alegria”.

2. SYLVIA PLATH

Mais conhecida por sua obra poética, a escritora americana explorava em seus escritos estados de sua mente e temas ligados à natureza, arte e às suas emoções. Em seu único romance, A redoma de vidro, Plath vale-se de diversos elementos de sua própria experiência na depressão. A obra foi publicada sob o pseudônimo de Victoria Lucas e é considerado um romance semiautobiográfico. Em 11 de fevereiro de 1963, Plath suicidou-se.

3. MARIAN KEYES

Autora de romances hilários, a escritora irlandesa Marian Keyes diz lidar com depressão crônica desde a infância, “entre indas e vindas”, conforme destacou. Para ela, “essa doença é parte da experiência humana, mas não é muito comentada. No momento em que eu comecei a escrever sobre ela, as pessoas responderam positivamente.” Em 2009, já com mais de dez livros publicados e seu livro “Melancia” ocupando a lista de mais vendido em diversos países, Keyes vivenciou um episódio depressivo particularmente difícil. Durante este período, a autora afirmou não conseguir escrever ou ler: “(...) no fim de uma frase, esquecia o que estava escrito no começo. Isso é a pior coisa do mundo para quem trabalha com palavras.” Ela avalia os três anos de jornada por este episódio como um divisor de água: “Passei a escrever o que quero, sem medo de desapontar ou ofender as pessoas. Em certo sentido a depressão me trouxe liberdade (...). Ela segue tematizando o assunto através do humor, “Minha intenção é fazer as pessoas rirem, para depois refletirem”.

4. ELIZABETH WURTZEL

Jornalista e escritora, um de seus trabalhos mais conhecidos é o livro Nação Prozac, onde narra sua luta com a depressão enquanto estudante universitária. Wurtzel já convivia com processo depressivo desde seus 10 ou 12 anos. Seu livro gerou grande repercussão por promover diálogos acerca da depressão e de seu tratamento em uma época onde o assunto ainda era um grande tabu.

SPOILER:

No próximo post, conversaremos sobre autoconhecimento & depressão:

- Como descobrir se a experiência vivida corresponde à depressão?

- Como proceder em uma depressão? Até quando é possível esperar antes da ajuda profissional? Como é possível ir se ajudando? Como a sua criatividade pode te ajudar?



FERNANDA CARVALHO é graduada em psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) & mestra em psicologia pela UFC. Atua enquanto psicóloga clínica e psicóloga social. É escritora premiada e fundadora do Bora Cronicar.

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ALGUMAS REFERÊNCIAS:

SOLOMON, A. O demônio ao meio-dia: uma anatomia da depressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

WOLPERT, L. Tristeza Maligna: a anatomia da depressão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SAINT-EXUPÉRY, A. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

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