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Como saber se tenho depressão & Quando devo buscar ajuda

Atualizado: Jul 29

por Fernanda Carvalho


Enquanto escrevo este artigo, me chegam – aqui e acolá – fragmentos de repercussão do artigo anterior. Depois de tocar um fio que compõe minha teia de experiências pessoais e profissionais, encontro reverberações em comentários e revelações de amigos próximos ou desconhecidos sobre a jornada pela depressão.


“É tão misterioso o país das lágrimas”, diz o aviador do Pequeno Príncipe, mais perplexo com o choro do desconhecido do que com sua súbita aparição infantil ou com a pane de seu avião no deserto. O choro do que não se sabe, mas que nos sabe é misterioso e parece um tanto enigmático.

Segundo a OMS, sofrem de depressão mais de 254 milhões de pessoas, dado que cresce velozmente em um mundo que muda às pressas. Dado que dispara, ainda mais, em tempos de covid. Muit@s atravessarão a depressão e o autoconhecimento será cajado para esta jornada, pois a partir dele nascerão possibilidades de tratamentos e decisões. O autoconhecimento determinará a marcha do caminhante.

COMO SABER SE VIVO UMA DEPRESSÃO.

1. O QUE ME DIZ MINHA EXPERIÊNCIA?

O melhor indicador do que está acontecendo com você é sua experiência. Pode parecer óbvio, mas nem sempre estamos atentos ao que acontece diante dos nossos olhos e, menos ainda, ao que é brotado de nosso ser. Esse desencontro pode acontecer por inúmeros motivos, geralmente ruídos externos e internos. Cito como exemplos, respectivamente, a aceleração e o medo.


Na história do Pequeno Príncipe é interessante perceber que os personagens principais estão em jornada. O menino sai de seu planeta em busca de algo que não lhe é tão claro, de início.O aviador também está em jornada, em seu avião. Ambos findam por encontrar-se e encontrar a si no deserto.


O teor transformador desse encontro só é possível devido à disposição de experienciar o incômodo inicial que lhes lança, então, na jornada. Este incômodo iniciador de jornada varia: para o menino, seu planeta se torna demasiado pequeno e, além disso, ele deseja distanciar-se da flor. Para o aviador, a jornada lhe é estruturante, inclusive é o que constitui quem ele é - "aviador" - sempre indo de um lugar para o outro. Aventuro-me, aqui, a perguntar: o que buscava ele ? Ele diz ter se tornado aviador porque não pôde ser desenhista e não pôde ser desenhista por um episódio que será examinado no próximo post.


A coragem de experienciar o incômodo e o vazio é, portanto, o que coloca os personagens em jornada, sendo pré-requisito para o posterior encontro e transformação. Aliás, vale lembrar que o radical da palavra “experiência” vem do latim periri, que também se encontra em periculum, perigo. A raiz indo-europeia “-per” se relaciona com a ideia de travessia. Assim, é um perigo olhar para si, mas a travessia é pré-requisito ao destino.

Por isso, encorajo à essa “rendição” à experiência do agora em você. Seu ambiente interno dói? Arde? É colorido? Quando leu o artigo anterior, você se identificou com mais de cinco sintomas citados? Identificou-se com a descrição da experiencia de depressão? Por quê?

2. ESCALA APGAR ADAPTADA: AUTOPERCEPÇÃO E REFLEXÃO

Como já mencionado, a pandemia tem acelerado eventos psíquicos que estavam por acontecer ou que já estavam acontecendo. Obviamente, não existem precedentes, em termos de saúde mental, que indiquem com exata precisão o que resultará de todas as experiências geradas em função do agora.

A pandemia, por si só, trouxe enorme mal-estar aos indivíduos. O cuidado com a saúde mental tornou-se prioridade neste cenário. A doutora Elke Van Hoof – professora de psicologia da saúde em Vrije, Bruxelas e especialista em trauma e estresse – adaptou a escala APGAR, geralmente usada com bebês, para ser utilizada como ferramenta de saúde mental no contexto pandêmico. Esta adaptação promove autopercepção, podendo contribuir para a decisão de procurar ou não ajuda.

A escala compreende os seguintes itens:

a) APARÊNCIA

Como você está a olhos visíveis? (Ex.: Parece abatido? Ganhou olheiras? Perdeu ou ganhou peso? Parece abatido?)


b) DESEMPENHO

Refere-se ao desempenho baixo ou alto em tarefas domésticas ou de trabalho. Como tem sido seu desempenho nestas tarefas?


c) CRESCIMENTO

Compreende a capacidade ou vontade de obter novas informações. Ex.: costumava entender as coisas rápido, mas tem observado que tem dificuldade de entender o que estão lhe dizendo. Pede que as pessoas repitam várias vezes o que lhe comunicam.


d) EMOÇÕES

Refere-se ao manejo de suas emoções. Ex: tem tido respostas mais agressivas? Tem chorado mais?

e) RELACIONAMENTOS

Conecta-se a como tem se sentido e se comportado no âmbito relacional. Ex.: sente-se mais solitário? Sente-se esgotado pela presença dos outros? Tem buscado a companhia de outras pessoas com medo de ficar sozinha?

3. SEU CORPO FALA

Como seres que se expressam corporal e mentalmente, é possível que a depressão se manifeste também via sintomas físicas. É possível, inclusive, que se apresente quase completamente sob a forma de sintoma físico, sem que a pessoa se reconheça como triste ou deprimida. Segundo Marco A. Silva – médico e autor do livro “Quem ama não adoece” – esta é uma forma de “depressão mascarada”. Segundo o autor, 50% dos deprimidos apresentam, predominantemente, queixas orgânicas como:

a) Quadros de Distúrbios gastrointestinais;

b) Dores generalizadas;

c) Tonturas e vertigens;

d) Dores de cabeça;

e) Sintomas ligados ao coração;

f) Queixas ginecológicas;

g) Incontinência Urinária.


Outra expressão da “depressão mascarada” é a fadiga, “uma permanente sensação de cansaço e falta de disposição para quase todo tipo de atividade”. É uma sensação difusa e desagradável, diferente do cansaço após grande esforço. Excluídas causas orgânicas, é possível que a fadiga seja produto da tentativa de processar elementos de ordem afetiva.


A forma “mascarada” da depressão está relacionada a aspectos sociais culturais. Ao escrever uma crônica sobre minha experiência com a depressão, não tardaram comentários sobre o caráter velado que este tema ainda assume na sociedade atual. Infelizmente, ainda se confunde depressão ou saúde mental com frescura. A influência do social e da cultura em nossa psique é tão estruturante que, às vezes, a única via aceitável de expressão de dor do ser é pela via física. Daí o caráter “mascarado” de algumas depressões.


Outro indicativo corporal poderoso que fala são alterações no padrão de sono e nos hábitos alimentares. Estas podem acontecer pela demasia ou pela falta – se você vem observando essas mudanças sem causa óbvia, é possível que algo não esteja fluindo bem.

QUANDO DEVO BUSCAR AJUDA ?


- Quando sua qualidade de vida está sendo prejudicada. Você já não consegue desempenhar seus afazeres diários, sejam estes relacionados ao trabalho, ao lazer ou a eventos sociais. Ou até os desempenha, mas com grande dificuldade.


- Quando se sente identificada com a descrição e com mais de cinco sintomas citados no artigo anterior.


- Você pode usar a escala de APGAR como parâmetro de quando buscar ajuda profissional. Ainda que não se preste a ser uma ferramenta específica de detecção de depressão, esta foi construída para servir de parâmetro de saúde mental. Se pelo menos dois dos cinco denominadores pararam de funcionar abruptamente ou tiveram profundas modificações é possível que esteja vivendo estresse tóxico. Pode ser interessante buscar ajuda.

COMO POSSO SER AJUDADA?


- Através de Profissionais da área de saúde, psicólogo e , em alguns casos, psiquiatra. Existem muitos profissionais atendendo online e , até mesmo, voluntariamente, na pandemia.


- Via métodos de auto-ajuda ou alternativos (se você tentar 3 destes e estes se mostrarem insuficientes, é interessante buscar a ajuda de um profissional da área de saúde)


- No CVV - Centro de Valorização da Vida. Neste centro, realiza-se apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.



SPOILER:


No próximo post, conversaremos sobre criatividade & depressão:


- Como sua criatividade pode te ajudar nessa jornada?

- Um exercício de autodesenvolvimento criativo – método que se utiliza do lúdico e da criatividade como ferramenta para o autodesenvolvimento - para pessoas atravessando a depressão.

- O que estrelas risonhas, desertos e o pequeno príncipe tem a ver com depressão.


FERNANDA CARVALHO é graduada em psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) & mestra em psicologia pela UFC. Atua enquanto psicóloga clínica e psicóloga social. É escritora premiada e fundadora do Bora Cronicar.


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ALGUMAS REFERÊNCIAS :


BONDIA, Jorge Larrosa.Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Rev. Bras. Educ. [online]. 2002, n.19, pp.20-28. ISSN 1413-2478.

SAINT-EXUPÉRY, A. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

SILVA, M. Quem ama não adoece: o papel das emoções na prevenção e na cura das doenças. São Paulo, SP: Editora Best Seller.




CRÉDITO DE IMAGENS (respectivamente):

1. Retirado do livro o Pequeno Príncipe.

2. Retirado do livro o Pequeno Príncipe.

3. Luiz Clas

4. Daria Shevtsova

5. John Rae Cayabyab

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