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Como a criatividade pode ajudar a superar a depressão.

Atualizado: Jul 20

por Fernanda Carvalho


Estamos acostumados a pensar na criatividade como ferramenta utilizada na escrita, no trabalho ou em um objeto a ser construído. Este é um uso possível de uma força extraordinária que rege aspectos internos – e externos – de sua identidade, trajetória no mundo, afetividade etc.


A criatividade é a capacidade de criar: infundir vida no que não existe, lançando lhe sentidos. O criativo enxerga o não-óbvio, contudo essencial, posto que o “essencial é sempre invisível aos olhos”, como nos lembra o Pequeno Príncipe. Voltemos à história que tem nos servido de mote nessa série de artigos sobre depressão. Convém pausarmos em um diálogo entre o menino e o aviador:


“As pessoas veem estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas. Para o empresário, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém as teve (...) Quando olhares o céu de noite, eu estarei habitando uma delas, e de lá estarei rindo; então será, para ti, como se todas as estrelas rissem! Desta forma, tu, e somente tu, terás estrelas que sabem rir.”


O Criativo tem a capacidade de transitar entre mundos, isto é, de circular por sentidos já existentes sem estar impossibilitado de construir seu próprio sentido, logo seu mundo/realidade. Os quatro personagens – sábio, viajante, empresário, aviador – estão sob o mesmo céu. Cada um reage de forma singular à noite, pois não se conectam à noite em si, mas ao sentido dado à esta. E o sentido dado para a noite acopla-se à forma que cada um entende a si: viajante, sábio, empresário etc. Logo, a mesma noite estrelada jamais será tão bela para o sábio quanto para o aviador (interlocutor do menino), pois, para o primeiro, ela seria problema enquanto, para o segundo, gargalhada.


Outro aspecto interessante, é que o encontro com o pequeno príncipe modifica o aviador e, consequentemente, seu entendimento de noite. A partir daquele dia, o céu estrelado seria comporto por gargalhadas para o aviador. Além disso, a modificação de si, reverbera também na capacidade de criar ou de exercer quem se é.


No início da história, o aviador nos conta que desenhava, mas ninguém parecia compreender o que desenhava, tomando-o por pouco talentoso. Foi preciso uma pane no deserto e um encontro insólito para restaurar a potência de sua inteireza, pois é lá que ele é solicitado a desenhar um carneiro. Desenha, depois, baobás, a face de seu interlocutor, outras gravuras. Algo é resgatado e integrado. Tudo isso no deserto.

A depressão, sendo “uma temporada no deserto”, como diz Adélia Prado, é espaço para estes encontros insólitos e transformadores. A criatividade fomentou este encontro na jornada em busca de sentido da jornalista Mariah Costa .Eu mesma vaguei por meu deserto, por entre enormes dunas de areia fina, sob sol escaldante da depressão. Minha travessia durou um pouco mais de dois anos – demorei muito, leitor, para chegar à noite em que as estrelas riam para mim. Durante essa jornada , serviu-me de cajado a arte, mais especificamente a escrita.

Ao escrever, somos forçados a criar: palavras, frases, histórias. Além disso, lembremos que as palavras são sementes de novos mundos. Dessa jornada, nasceu meu segundo livro de crônicas, o 7 Tortas de Saudade. Este livro venceu um concurso e tomou corpo físico, mas , mais que isso, escutei de uma jurada que compunha a banca de avaliação que ele “conversara com ela”, postando-se ao lado de suas histórias silenciadas, dando-lhe à mão. Isto me tocou profundamente, porque percebi que um encontro, quando acontece, emana sua reverberação por outras vidas, facilitando encontros. Foi por isso, também que o Bora Cronicar nasceu.

Obviamente, a depressão pode também dificultar a escrita, como na história de Marian Keyes. Não existe receita de bolo quando se atravessa um deserto, ainda mais no caso da depressão, que interage de forma singular com a personalidade do deprimido. Todavia, é necessário lembrar que as formas de expressão vão para além da escrita e que o tempo do deserto é diferente do tempo fora dele, bem com seu propósito. Não se trata de produzir algo – livro, escritos, quadros ou o que seja – mas de encontrar-se a si utilizando-se do que pode auxiliar, seja terapia, escrita, fármaco, chá ou outro método que sinta ser auxílio. A jornada, contudo, é sua.



EXERCÍCIO DE AUTODESENVOLVIMENTO CRIATIVO


O autodesenvolvimento criativo é uma ferramenta que mobiliza a criatividade através de atividades lúdicas que vão desde a escrita ao mover do corpo – existem muitas formas de expressão.


Este método auxilia na minimização de danos emocionais, descortinando novas possibilidades de entendimento de sie das circunstâncias, deflagrando novos comportamentos e ações que tendem a um novo equilíbrio.


OBJETIVOS DO EXERCÍCIO DE HOJE:


  • Entender como e o quanto você está sendo afetada pelo que está vivendo. ( se não estiver atravessando uma depressão, o exercício serve de autopercepção do teu agora.)


  • "Mapear" sua vivência. Isto é importante porque quanto mais você entender o que está acontecendo, em suas próprias palavras, sem preocupação de usar palavras psiquiátricas ou termos bonitos, mais segura vai se sentir para tomar alguma providência ou pedir ajuda a outros.


  • "Desenferrujar" a capacidade de criar sentidos singulares.


BORA PARA O EXERCÍCIO ? :)


1. Vá para um lugar tranquilo onde não será interrompido


2. Leve:

a) Papel

b) Caneta

c) Fone de ouvido

3. Assista o vídeo à seguir. Trata-se de um vídeo com a pequena história do livro de Matthew Johnstone, Eu tinha um cachorro preto chamado depressão.




4. Para o autor, sua depressão era como um cão.


- Que bicho seria a sua ?Por que?

- Como é viver com esse bicho, isto é, que cuidados especiais você precisa assumir por causa da sua presença?

- O que você começou a fazer ou que deixou de fazer desde que começou a viver com ele? Por que?


FERNANDA CARVALHO é graduada em psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) & mestra em psicologia pela UFC. Atua enquanto psicóloga clínica e psicóloga social. É escritora premiada e fundadora do Bora Cronicar.

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