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Carta à vó - um escrito especial do dia dos avós

por Lara Rovere


Oi, vó! Como é que a senhora tá? Pertinho do pai e do vô? Do bivô e da bivó? Sei que foi a saudade que te levou daqui pelo braço. Não foi só a dor na coluna por causa da queda. Era dor na alma, né? 

A vida não alivou pra ti, sempre com a morte ali, te rondando, puxando pra baixo. A senhora tá melhor da depressão? Quem sabe agora, tenha até voltado a sorrir, posar pra foto, tocar piano, pintar... Foi obra tua aquele arco-íris bonito que vi outro dia?  Por aqui, nessa casa que hoje chamo de minha, mas que ainda tem tanto da tua presença pelos cantos, quadros dividem as paredes com rabiscos da Luiza, tua bisneta. Luiza Rovere. O talento para arte ainda é cedo pra dizer, mas o teu sobrenome ela carrega, vó.  Não sei se a senhora aprovaria a nova decoração. É que sempre achei que o cinza acentuava o ar de melancolia que andava por aqui junto com os teus passos arrastados.  Lembro da casa cheia, da disputa pelo carreteiro quentinho, da salada de batata, dos aniversários, Natais. Da época em que te alcancei e passei a calçar o mesmo número que o teu e dividimos, de forma literal, nossa paixão pelos sapatos. Da internet discada, do vovô ouvindo as conversas no corredor, do Kit MaChereie que ganhei de ti, do teu cabelo sempre bem arrumado, com um lenço amarrado. Da vaidade que, apesar de tudo, se mantinha. Dos domingos de  frango assado, domingo espetacular, Raul Gil e cochilo no sofá. Do papai te convencendo a sair um pouco da rede, a tomar um ar. 

Do tempo em que a casa, já tão grande, foi ficando ainda maior, se esvaziando. Da gente se aninhando na cama, dividindo o choro e a sobremesa. Sei que o tio Ítalo queria que a senhora se alimentasse saudável, mas eu não resistia e até ao hospital levava um docinhos, sorvete, como um prazer clandestino que compartilhávamos. Como isso, talvez só te mostrar uma foto do Nino! Só assim, fazia verão no teu rosto de novo.  Tua partida foi em julho, mesmo mês em que o papai se foi, com apenas um ano de intervalo. Já se vão quantos ao todo? Sete. Mas sabe que morar aqui me faz sentir vocês mais perto? Aquele sentimento de casa de vó não mudou, mesmo que eu tenha mudado quase de lugar. Coloquei muitas plantas na varanda. Já matei algumas, mas insisto em repor. Sei que a senhora gosta.  Sei também que nem todas as minhas escolhas devem ter sido do agrado de vocês. Mas a senhora, amante do Sinatra, sabe que na vida a gente tem que buscar fazer as coisas do nosso jeito, né? Hoje percebo que o teu, embora não fosse alegre, expansivo, nunca deixou de ser genuino, forte, afetuoso. Olho pro quadro da Frida que coloquei na cabeceira e lembro de ti, das cores que fizeste brotar das sombras. No lugar do autoretrato, fugias para paisagens coloridas, para um paraíso pintado, inventado, que espero tenhas, enfim, encontrado.  Tenho muita novidade pra contar, mas quero saber de ti, vó. A senhora tá feliz? Tem lido Isabel Allende, feito palavra cruzada, conversado com o vô e com o pai, assistido à gente em paperview? Espero ter te dado algum orgulho.  Te amo! Diz pro pai e pro vô que eu também os amo muito, tá? Em todas as cores, todas as notas do piano. 



LARA ROVERE é jornalista, escritora e celebrante. __________

1. Capa: Photo by Edu Carvalho from Pexels

2. Photo by Karolina Grabowska from Pexels




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