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A herança por Alessandra Loreto

Revisito aquele lugar inóspito, um ponto comercial adaptado à moradia. Ela me recebe com um desviar de olhos e um passar de mãos nos cabelos, que estavam mais longos e mais brancos que o de costume. A habitação escura escondia a roupa surrada, os chinelos muito usados e os móveis gastos. O cheiro acro era o mesmo. Sentei em restos de tamboretes, ao soar de repetidos pedidos de perdão pela pobreza das “novas” instalações, pelo seu excesso de feiura e pela sua doença: seu típico repicar de enfadonho vitimismo. Depois do desconforto inicial, o ambiente foi ficando mais leve. Ela rememorou tempos antigos. Contou fatos até então desconhecidos. Que casara a primeira vez na igreja com treze anos, mas que se separara; aos dezesseis conhecera o pai do meu pai, um belo moreno de voz afinada e de olhos verdes prometido a padre. Casou-se apenas no cartório com o ex futuro sacerdote, que depois virara pai de santo, largando-a com um filho pequeno, após fugir com a madrinha de batismo do menino. Quando tinha vinte anos de idade, recebera uma carta, informando que se esposo fora morto na cidade do Recife. Lembrou que criou o filho lavando para fora e como prestadora de serviços gerais. O filho único envergonhava-se de ajudar a mãe a entregar as roupas engomadas pela vizinhança; ela orgulhava-se do rebento terrivelmente engomadinho. Bem que tentara reconstruir sua vida sentimental, arrumar um novo marido, mas o filho não permitia. Quem já se viu? Ela era sua mãe! Com o suor do seu trabalho, ela comprou uma casinha no bairro que amava e um jazigo no cemitério São João Batista. O filho disse que aquele bairro não era bom, que levaria a mãe para morar num ótimo apartamento, que mantivesse dali uma distância regular; mas que fosse uma linha reta entre a casa dele e a praia. Ele visitava a mãe pelos seus dotes culinários e cuidava de separar bem os departamentos, isolando a esposa e os filhos da mãe que era só dele. De vez em quando, a vó escapava e nutria alguma relação com os netos, pautada numa ambrosia aqui ou num bife acolá. Quando a casa que construíra desmoronou, o filho voltou em definitivo para o seio materno, recebendo seus serviços gerais e alimentando-se da magra aposentadoria. O bom apartamento fora oferecido em pagamento das dívidas do filho e o doentio dueto foi morar no ponto comercial adaptado à moradia de que hoje me recordo. Num estranho inventário da herança da vó, percebo que minha irmã mais velha carrega o seu nome e sua vocação ao pseudovitimismo; a do meio a sua beleza disfarçada e o seu talento culinário; e eu, o que e será que eu herdei? Sobrou-me uma responsabilidade insana pelo seu egocêntrico filho, meu pai, de quem costumo ver os erros com brandura e benevolência, tal qual uma mãe que não sabe amar. Além disso, naquela tarde, que foi nosso último encontro, ela me entregou uma bolsa com os símbolos de suas maiores riquezas: os documentos da casinha, que fora usucapida por familiares estranhos, e do jazido do Cemitério São João Batista, onde descansam seus restos mortais.

ALESSANDRA LORETO é ex-neta, filha e servidora pública.

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