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A gente cria filho é para o mundo por Argentina Castro

É claro que o útero é muito mais que um pedaço de carne, um órgão oco com um furo em seu colo por onde entra e sai líquidos e gente. Muito mais que lócus da reprodução da vida humana um útero é abrigo, solo sagrado, tantas vezes invadido à revelia do ser que o abriga. É lugar por onde nós, que recebemos a alcunha de “menina/mulher”, jorramos, sangramos nossos ciclos que são bem mais que revirados pelos hormônios, mas pela própria natureza que também fazemos parte. Útero/lua/maré/mar. Útero rio/líquido amniótico que é de Oxum, mas também de Iemanjá! Mas o que dirá, o que diremos de pessoas que nascem sem útero e que jorram e que sangram e que amam tal qual uma mulher porque assim o é. Não é o útero que nos faz mulher, não é o útero que nos faz mãe. Não é o útero que nos faz querer ser uma ou outra. Quantas de nós escolhe, de verdade, sem imposição social, ser mãe? Quantas de nós escolhe, não ser?


Eu mesma escolhi pela não maternidade. Sempre tive medo dessa responsabilidade gigantesca de colocar gente no mundo, nesse mundo que está pela hora da morte, literalmente agora mais que nunca. Sempre tive medo! E como viver não é assim uma experiência dos deuses, eu nunca quis botar gente no mundo para sofrer. Eu nunca, jamais, me perdoaria por isso. Você que me lê deve pensar que sou uma louca, que não é bem assim que filho é uma benção e coisa e tal. E é. Você está enganada (o) se pensa que estou dizendo o contrário disso. Tenho oito sobrinhos e, no dia das mães, eles me chegam com afetos de toda ordem e me dizem a frase mais poética que meus ouvidos já puderam ouvir até aqui: “parabéns pelo dia das mães, tia”. E eu juro por cada um deles, é o dia mais feliz da minha vida. Eu vivencio a maternidade através desses oito seres que defendo com unhas e dentes, mas que sou extremamente cruel, vez ou outra. E essa é a parte danosa da maternidade que eu não quis pagar para ver. Eu já fui criança, eu sou filha. Eu sei do quanto minha mãe errou comigo e meus irmãos tentando acertar ou achando que estava fazendo a coisa certa. As mães são humanas! A minha, de tão humana, nos protegeu mais do que o necessário quando não era preciso e quando foi preciso falhou, aqui e ali, junto com meu pai porque eu não perdi o juízo para colocar tudo nas costas dela. Eu amo a minha mãe com todos os defeitos e sei que ela fez e, ainda faz, o que pode e o que não pode. E é nela que vejo a força e a coragem, o medo e a vontade de acertar na vivência materna. Não é fácil ser mãe quando nessa sociedade se espera que as mulheres sejam o suprassumo da força e da coragem. Ser mãe noz diz que devermos duplicar a dose. E isso é muito desumano.


Mas, no meu caso que não gestei filho algum, inventei no meio do caminho da vida, de gestar uma biblioteca comunitária dentro da casa que me viu crescer. São quatro anos cuidando com amor e carinho, zelando, protegendo, brigando, arrumando, limpando, lendo, querendo sempre o melhor, gastando dinheiro que não tenho, tentando perceber as fragilidades para trabalhar nelas e fortalecer os pontos fortes. Não pari uma criança, mas cuido para que oitenta delas tenham acesso ao direito à cultura na Biblioteca Comunitária Papoco de Ideias. Esse é o nome da minha filha, da filha que não saiu pelas entranhas do meu útero, mas pelas entranhas do meu coração e que representa tantas outras crianças criadas no território do Pici e que, desde eu mesma me entendo por gente, é um território esquecido pelos gestores e pelas políticas públicas.


Talvez eu morra e não saiba o que é um corpo modificado ao longo de nove meses, nem amamentar e nem resguardo. É verdade, minhas irmãs podem confirmar, não sei banhar, limpar a bundinha, nem dar mamadeira. Sensação que tive é que que ia quebrar, ao meio, que ia engasgar cada um dos meus sobrinhos. Mas eu sei o que é passar a noite tirando e colocando o termômetro das miúdas axilas dos meus sobrinhos, dando o conhecido banho de toalha para baixar a febre, observar atenta se estão respirando. Eu sei o que é fazer escândalo dentro de um hospital para que atendessem logo minha sobrinha, eu sei o que é chorar de medo que eles morram quando adoecem, eu sei o que é chorar de emoção nas festinhas de ABC. Eu sei para quem eles mostram, as vezes antes mesmo das minhas irmãs, o boletim. Eu sei o que é acolher quando ficam menstruadas pela primeira vez e, além do sangue que desce, acolher o choro por esse momento tão esquisito para todas nós. Eu sei o que é sentir ciúmes quando começam a namorar e ficar puta da vida quando eles acham que sabem de tudo, quando nos escondem coisas importantes e, infelizmente, passamos de amigas para, inimigas. Eu sei o que é defender com unhas e dentes. Quantas vezes briguei com minhas irmãs e irmão para defende-los? Mas eu também já briguei com minhas irmãs que defendiam seus próprios filhos quando eu achava que eles precisavam mesmo era de um bom carão. Se sou uma tia desse tipo, imagina como seria como mãe? Melhor mesmo não ter pago para ver! Mas de uma coisa eu tenho certeza, se ser mãe é dar a própria vida pelo filho, eu dou a minha vida por cada um dos meus oito sobrinhos. E não é meu útero que diz que eu morreria feliz e em paz. É meu coração que ama, que erra e que acerta, como tia que sou. Quanto as crianças acompanhadas pela Biblioteca Comunitária Pacoco de Ideias eu luto para que elas tenham a vida de criança que eu não tive. Para essas meninas e meninos que não pari, eu quero o melhor, eu quero o futuro. Eu quero que eles fiquem adultos, realizem seus sonhos, sejam bons e solidários. Mas eu quero também que sejam bons de briga, não de tapa e nem de murro, mas de argumentar a vida, a condição social em que nasceram e que não é a condição que precisam envelhecer. Do lado de cá onde moro, chegar aos trinta anos de idade é uma é uma verdadeira loteria, mas não deveria. Do lado de cá, nós também temos o direito à vida! E se eu gestei a Papoco de Ideias foi para que ela crescesse e me ajudasse a consolidar esse direito que também é um sonho. Ela ainda é uma criança aprendendo a dar os primeiros passos. Minha mão ainda lhe segura para evitar quedas. Eu que oriento, eu que antecipo os riscos, eu que dou carão, mas também os afagos. Eu a protejo e não deixo que ninguém a faça mal. Na minha filha ninguém encosta a mão a não ser que seja para ajudá-la a crescer e a se desenvolver com afeto e segurança. Eu me trabalho para não ser uma mãe possesiva, controladora e, por isso mesmo, as crianças que nela entram para ler, brincar e aprender já sabem que, no futuro próximo, eu quero estar com meus cabelos brancos só aplaudindo e me emocionado com o crescimento humano e cultural de cada um deles que serão os futuros pais e mães da Papoco. Afinal, a gente cria filhos é para o mundo! E por isso ela é criada não só por mim, mas pela minha mãe, irmãs, amigos e amigas. Essa criança vive em guarda compartilhada e não foi por imposição judicial, mas por uma decisão afetiva de cada um que chega para ajudá-la a crescer movidos pelo senso de justiça.

Olho para trás, vejo o quanto ela cresceu e só sinto orgulho da cria que pari, mas que não crio sozinha.


ARGENTINA CASTRO é poeta, cronista, contista. Filha de vaqueiro e indígena maranhense. Veio da mãe os causos das águas, a pesca, o landuá, o jiqui, a rede caçueira, a tarrafa, o mergulho, a fartura. No dia de São Pedro comemora seu aniversário que, em registro, são dois dias antes. O santo lembra festa, fartura, fogueira, milho assado. Dentro dela mora um aprendiz de pescador. Mas não é de peixe o seu pescar, mas de palavras que brotam das memórias dos rios e, também, do mar.


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