• Bora Cronicar

É ela por Maria do Nordeste

Hoje vendo meu neto correndo pela varanda, brincando e pulando feliz, desconhecendo o que é sofrimento e pobreza, só tenho a agradecer a ela.


Lembro que quando criança, morávamos no sertão do Ceará, e lá era tão quente, que o solo chegava a rachar. Água era produto que raramente se encontrava, e minha doce mãe, tão nova, mas, aparentando o dobro da idade, por causa da pele queimada pelo sol escaldante, tornava quase imperceptível a sua beleza.

Meu pai, saía cedo, para arar a terra, na busca incessante de conseguir nos sustentar. Nossa casa era de barro batido, telhado de palha e chão de terra. Eu e meus irmãos nos amontoávamos para dormir em um colchão de palha coberto por um pano grosso, e nas noites frias, ficávamos bem juntinhos um dos outros para tentar nos aquecer, e minha mãezinha nos abraçava para que conseguíssemos dormir.

Pela manhã, o fogão de barro, não tinha nada para comermos, mas, a minha mãe ia atrás, e sempre voltava com algo, e dividia para mim e meus irmãos, e nunca sobrava nada para ela. Mas, ela sabia como tornar o pouco em um banquete digno de um chefe de cozinha. Poderia ser um punhado de farinha ou de feijão, ou ainda alguns ovos ou simplesmente palma, e algo muito especial era feito. Acho que o tempero era realmente o amor daquela mulher.

Era calada, uma mulher de poucas palavras, mas, o carinho por nós era imenso. Vivemos tempos tenebrosos, porém, mesmo nos piores dias, nunca vi minha mãe reclamar ou lamentar da vida dura que tínhamos. Ela parecia sempre tão iluminada, que quando eu a olhava, por mais chateada e triste que eu tivesse, o simples sorriso no rosto dela, me dava esperanças para uma vida melhor.


Uma mulher forte, que tirava leite de pedra. E foi o amor dela pelos filhos, e a coragem de lutar sem desistir, que me inspiraram a batalhar por uma vida melhor. Ela nunca sonhou alto, nem desejava uma vida especial. O único sonho dela, me disse uma vez, era que os filhos tivessem uma vida digna.


Lembro, que certa noite, levantei e percebi que minha mãe estava sentada do lado de fora em uma pedra, olhando para o céu, e apesar da pouca luz do lampião, as lágrimas dela desciam pela face. Eu me aproximei, e perguntei porque ela estava chorando, e ela respondeu:

- São lágrimas de felicidade, por Deus nos ajudar a continuar todos juntos, apesar de tantas dificuldades.


Mas, nossas vidas não foram só agruras, quando a chuva chegava, nós nos enchíamos de alegria. A comida era farta, a água nos lavava o corpo e tirava a

nossa sede. Minha mãe corria pela chuva conosco, dançando e cantando como uma criança inocente.


Hoje sei, que aquela mulher meiga, era forte como uma rocha, tirava força de onde nem imagino, e fazia tudo por nós.


Por causa dela, eu estudei com afinco, consegui passar no vestibular, e fui estudar em uma faculdade pública da Capital.


Eu estudava durante a noite e trabalhava o dia todo, às vezes eu tinha vontade de desistir de tudo, mas, aí, eu lembrava da minha mãezinha, e continuava a minha luta, que era tão ínfima, diante da dela.


Enfim, consegui terminar a faculdade, e depois de alguns anos, passar em um concurso para defensoria pública.


Naquela época, não tive dúvidas, trouxe minha mãe para perto de mim, e desde então, dou a ela tudo o que posso, pois, apesar dela não ter nada, ela me deu tudo. E hoje, quero lhe dar um pouco de conforto.


Quando eu a trouxe para perto de mim, fui buscá-la na estação de ônibus, e quando aquela mulher magra, de traços sofridos no rosto, vestido de chitão e lenço na cabeça desceu, eu corri e abracei, e fiz questão de gritar aos quatro ventos: - Essa é a minha mãe, a mulher mais maravilhosa do mundo.


Vi a luz nos olhos dela, e as lágrimas descendo. Mas, eu só compreendi, realmente, o que tornava a minha mãe tão forte, era essa coisa inexplicável da maternidade. Não só naquelas que colocam seus filhos no mundo, mas, também, daquelas que criam filhos, como se fossem seus. Amor de mãe, é algo sem explicação, e sou muito feliz por ter compreendido seu verdadeiro significado.


MARIA DO NORDESTE é mãe, avó, servidora pública, escritora nas horas vagas


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